Textos

Acho que um miniblog ou algo assim?


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2021.IX.21

Bastante tempo sem acrescentar nada aqui. Felizmente não tenho tido muito a dizer mesmo, a vida fluiu mais nestas últimas semanas.

Sim comentar algo de umas postagens anteriores, o "mundo" não é errado não, o problema é desconectar-se dele.

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Outro tema. Do Wittgenstein, "appreciating music is a manifestation of human life" no original aparece como "Das Verständnis der Musik ist eine Lebensäußerung des Menschen."

Sou bem incompetente com o alemão, mas a tradução em inglês tem uma coisa meio passiva (escuta como uma coisa que está/acontece na vida). Uma tradução melhor talvez fosse "desfrutar música é uma forma pela qual a vida humana se faz enunciar" (escuta como encarnação da vida).


2021.VI.06

Recém descobri (por conta desta peça do Steve Reich) um compilado de anotações do Wittgenstein, traduzidas para o inglês e publicadas com o nome Culture and Value. Ontem (hoje de madrugada) li quase metade do livro. Eu ignoro quase totalmente a filosofia do Wittgenstein (exceto por uma ideia muito superficial do que se trata), mas me senti profundamente identificado com algumas questões pessoais dele. Mais que nada pela relação que ele mesmo tem com o Mendelssohn.

"Mendelssohn is like a man who is cheerful only when everything is cheerful anyway, or good only when everyone around him is good, & not self-sufficient like a tree that stands firmly in its place, whatever may be going on around it. I too am like that & tend to be so."

"What is lacking in Mendelssohn's music? A 'courageous' melody?"

E lendo o Wittgenstein vejo nele as mesmas dúvidas que tenho, a sensação de falta de originalidade, uma certa distância da vida concreta que ele tenta encurtar, a luta por superar barreiras entre ele e a experiência (principalmente pela música me parece, "appreciating music is a manifestation of human life"). Obviamente ele morreu fazem décadas, mas ter acesso a esses pensamentos mais pessoais fez com que eu me sentisse acompanhado, coisa que não sinto há algum tempo.


2021.V.31

Existem momentos em que fica particularmente claro pra mim o quão errado é este mundo, e o quanto eu vivo mal. Digo isto me atendo à profissão de fé que fiz uns dias atrás aqui. É tão fácil cair na mesquinhez do falso cotidiano, na ansiedade pelas contas, na ganância, no desejo.

Em certo sentido eu sei o que deveria fazer, abrir mão de tudo e abraçar a mágica do mundo, uma coisa cristã mesmo, vender tudo, dar aos pobres e seguir a verdade. Mas não sou santo.

Além do quê eu tenho fé em outras coisas, na beleza de projetos da racionalidade, na abstração, no planejamento. Esse é um lado meu que já conheço bastante, se tenho insistido tanto na fé na experiência é pela busca de certo equilíbrio.


2021.V.24

Minha religião é a experiência sensível do mundo. Os locais sagrados para mim são aqueles em que é possível vislumbrar partes da Máquina do Mundo do Drummond, os rituais são os momentos em que estas partes se revelam. Pode ser uma praça deserta às 23 horas de uma quinta-feira, podem ser os 5 minutos de caminhada no meio da tarde debaixo de chuva, pode ser uma viagem de várias horas por uma BR.

No entanto é inegável a primazia da noite, verdadeiro milagre de transubstanciação. Aquele ponto de ônibus durante o dia é somente um ponto de ônibus, banalidade justificada por sua funcionalidade como ponto de espera e passagem de pessoas, elas mesmas banais e passageiras (naquele contexto). A noite remove este véu do útil, do funcional, e revela aquele local como o que realmente é, milagre da existência. Na meia-luz e na escuridão a imprecisão das formas leva a infinitas bifurcações de significado, incontáveis portas a mundos novos e ao aprofundamento dos mundos já conhecidos


2021.IV.07

I was writing, occupied, distracted with thoughts and toil, when a visiting noise crossed the glass panes of my window. The sun light had not receded, making the water drops falling in the leaves of my garden all the more special.

I was immersed in the rumour of the rain. And as I came back to myself, simpler, purer ideas crossed my mind.

I felt happy


2021.IV.05

"aquilo q o pessoal chama de originalidade e dá um peso fudido na vdd chama 'minha posição nesse sistema de valoração universitário, que por sua vez é minha coisa da auto-estima'.originalidade mesmo é um fazer-com-felicidade, e felicidade é transmissão contínua entre ser e mundo"
@notaspradiscos(grifo meu)


2021.IV.02

En un invierno
Apareció el amor
Como un jardín

En un verano
Al final la cobranza
Como un alquiler

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"[...] a man is rich in proportion to the number of things which he can afford to let alone."
- Henry David Thoreau


2021.IV.01

Hoje me deparei com a constatação que a pandemia não vai ter fim. Não tem vitória, não tem celebração possível, só horror, e lenta constatação desse horror. Em um primeiro momento é um horror individual, ter consciência de que a vida é isto agora: as pessoas são um risco, a rua é um risco e somente uma parede muito fina (ainda que frequentemente opaca) nos separa dos hospitais lotados, das pessoas entubadas em corredores, dos enterros sem testemunhas.

E esse horror já é suficiente como matéria prima de várias noites de insônia, pesadelos, ansiedade. Mas acredito que há um horror ainda maior, um horror coletivo. Um horror que é dar-se conta de que estamos presenciando uma hecatombe. Centenas de milhares, provavelmente milhões de mortos, como bombas nucleares caindo em Hiroshima por anos a fio. Mas tudo isso com uma banalidade, uma cotidianeidade que se for suficientemente deliberada se torna insuportável.

Porque é dor e sofrimento em uma escala que não estamos preparados para ver revestida da mais absoluta indiferença. Como ver uma pessoa ser sufocada até a morte na nossa frente e ter por obrigação seguir normalmente o dia, como se não houvesse nada acontecendo.


2021.III.31

Tudo quanto é coisa da vida me dói profundamente. Faz tempo estou mergulhado em uma noite que não termina. A pandemia, é claro, tem muito que ver com tudo isso, e no princípio estar em quarentena até era uma noite azul de verão. Mas faz tempo minha visão perdeu todo senso de profundidade: uma noite sem perspectiva, toda informação comprimida em um mesmo plano, denso e opressivo.

Or as said ~sippey (probably in a more positive vein):


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